O
objetivo da Suma Teológica (Summa Theologiae) é expor tudo o
que se concerne a “religião cristã” (“Christianam
religionem pertinent”), mas
do modo mais adequado possível, para que possa ser assimilado por
todos, principalmente pelos iniciantes em tal doutrina (“secundum
quod congruit ad eruditionem incipientium”)
a fim de se alcançar a plena iluminação das verdades
racionais - acerca dos homens, do mundo e de Deus - e a
bem-aventurança eterna.
Tal
finalidade se fundamenta, de um lado, no dever de ensinar, como parte
do magistério da Igreja e, de outro, na busca pela verdade, a que
todo cristão deve se empenhar. Assim, segundo Santo Tomas, o “doutor
da verdade católica” (“Catholicae
veritatis doctor”) , isto
é, aquele que é “douto” ou “instruído” nas verdade
fundamentais da doutrina cristã tem por missão, além de aprofundar
a pesquisa dos teólogos, ou seja, dos “adiantados”, também, a
ampliação e o aprofundamento dos conhecimentos dos “iniciados”
ou “incipientes” (“incipientes
erudire”), isto é, àqueles
que são leigos, neófitos ou principiantes, na Doutrina Cristã.
A
Suma Teológica, com efeito, um dos mais majestosos empreendimentos
da razão humana, não passa, enfim, de uma obra de “introdução”
a Teologia. Sua finalidade é eminentemente pedagógica, de conduzir
os iniciantes do estudo da Doutrina Cristã, aos seus conceitos
fundamentais. São Paulo Apostolo (1 Cor 3,1-2) - tanquam
parvulis in Christo, lac vobis potum dedi, non escam -,
nesse sentido, citado por Santo Tomás de Aquino, ainda no Prologo,
afirma que é necessário a instrução dos “meninos” na fé,
que, assim como a alimentação das “crianças”, deve começa
pelo “leite”, mais fácil de ser digerido, das verdades mais
fundamentais da Doutrina Cristã, para que, depois, seja fornecido o
“alimento sólido”, das verdades mais profundas da Fé.
Essa
preocupação de Santo Tomás de Aquino foi de encontro a algumas
dificuldades (“plurimum impediri”),
totalmente de natureza prática, mas que totalmente repercutiam no
desempenho pedagógico do ensino da Doutrina Cristã na época.
Como
sabemos, o ensino medieval, se estruturava em três níveis (vide Le Goff, Gilson) a etapa
inicial, era a lectio
(leitura),
na qual os alunos iniciantes apenas ouviam os textos que eram
destinados às aulas, para estudo. Devido à carência de livros na
época, por um motivo estritamente técnico, quer dizer, econômico,
o ensino não era baseado na leitura direta
do texto, mas
na sua
audição
em classe (donde
a expressão “textos clássicos”).
Depois
dessa etapa,
vem os Commentaria
(comentários),
caso o aluno, mediante as arguições,
feitas
nas sabatinas
(devido
a serem realizadas nos sábados), demonstre competência suficiente
para ser autorizado, pelo mestre, a comentar
os
textos canônicos adotados pela escola.
A
disputatio
(disputa),
finalmente, era o exercício, baseado no exame dialético
do texto, que, mediante debates entre mestres e alunos, se examinava
os textos canônicos com base em questionamentos e na apreciação de
proposições contraditórias extraídas
desses
textos ou de comentários sobre esses.
Santo
Tomás, no entanto, observa uma série de dificuldades nesse método
pedagógico – 1) o número excessivo de questões, artigos e
argumentos inúteis (“multiplicationem
inutilium quaestionum, articulorum et argumentorum”);
2) a
adoção, muitas vezes, de uma
errônea
sequencia
de ensino, em que os assuntos eram expostos pelos mestres segundo
a
maneira como aparecia nos livros - “secundum
quod requirebat librorum expositio” (já
nessa época, professores excessivamente dependentes dos conteúdos
dos livros) ou 3) segundo a
sequência como as
questões surgiam nas “quaestiones
disputatae”,
isso
é, de
maneira aleatória, sem estar de acordo com um método adequado
(“secundum
quod se praebebat occasio disputandi”).
Finalmente,
para Santo Tomas de Aquino, o verdadeiro método de ensino e de
exposição da matéria deveria ser “secundum ordinem
disciplinae”, ou seja, “segunda a ordem da disciplina”.
Nesse
sentido tomista, não há, necessariamente, uma divisão entre o
pedagógico e o conteúdo ensinado, sendo que, se se organiza os
conteúdos a serem expostos segundo a ordem do Ser; isso
significa uma completa adequação entre o que vai ser assimilado
pelos alunos e a própria estrutura ontológica (que inclui também a
estrutura lógica) desses, partido-se dos princípios gerais para
logicamente se deduzir as consequências mais longínquas dessas,
formando um corpo unificado de proposições sobre um determinado
objeto.
(Outro
“banho” que Santo Tomás dá em alguns aspectos da Pedagogia
moderna – a baboseira do “simples” para o “complexo” - é o
§ 2 do “Ente e a Essência”: “devemos chegar ao conhecimento
das coisas simples a partir das coisas compostas e alcançar o que é
anterior a partir do que é posterior, de maneira a que a exposição,
ao iniciar-se pelo que é mais fácil, se torne mais adequada.”)
Trata-se
do próprio método axiomático-dedutivo, estabelecido por
Aristóteles, que foi posteriormente adotado, por exemplo, em
Descartes, Spinoza ou Wittgenstein,
mas não de maneira tão luminosa quanto pelo Aquinate, e a serviço
de uma causa eminentemente pedagógica.
Vendo
um mestre como Tomas se preocupar como o aborrecimento (“fastidium”)
e a confusão (“confusionem”)
dos jovens alunos nos cursos (“animis
auditorum”) de Teologia,
enfatuados com as inúteis repetições (“frequens
repetitio”) dos assuntos, é
uma reviravolta em algumas concepções arraigadas que pintam os
mestres escolásticos como amigos de torturantes métodos
pedagógicos, unicamente baseados na memorização e na repetição e
no pensamento obtuso e impenetrável. David Hume (Tratado da Natureza
Humana, Introdução, 3), por exemplo, para quem, o raciocínio
metafísico, sinônimo de escolasticismo, não passava de uma
“forma abstrusa e [que] requeira alguma atenção para ser
compreendido” (“kind of argument, which is any way abstruse,
and requires some attention to be comprehended”) se espantaria
com esse esforço de simplificação e de luminosidade que Santo
Tomás exigia não só do pensamento como dos métodos de ensiná-lo.
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