sexta-feira, 11 de outubro de 2024

Da conjunção de leituras: Mario Quintana, Jorge de Lima - "Cantemos a canção da vida"




"Cantemos a canção da vida" ["A vida é um incêndio: nela dançamos"], "Que importa restarem cinzas se a chama foi bela e alta?", "Cantemos [pois] a canção da vida, na própria luz consumida"; porém, quando "O Poeta [se posta] diante de Deus", diante da Eterna e Suprema Presença - "O Pensamento que te dei era muito diferente da voz gritando tanta coisa ruim."

terça-feira, 8 de outubro de 2024



Parafráse a João Cabral de Melo Neto


              Permita Deus que vivamos o insano projeto

                                                        De envelhercer sem rotina;

                                                        Despelando-nos 

                                                        Do que antes então fomos...

                                                        E chegando a noite,

                                                        Saltemos os muros

                                                        Em demanda por novos serenos... 

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Suma Teológica - Prólogo, da Pedagogia da Doutrina Cristã

O objetivo da Suma Teológica (Summa Theologiae) é expor tudo o que se concerne a “religião cristã” (“Christianam religionem pertinent”), mas do modo mais adequado possível, para que possa ser assimilado por todos, principalmente pelos iniciantes em tal doutrina (“secundum quod congruit ad eruditionem incipientium”) a fim de se alcançar a plena iluminação das verdades racionais - acerca dos homens, do mundo e de Deus - e a bem-aventurança eterna.

Tal finalidade se fundamenta, de um lado, no dever de ensinar, como parte do magistério da Igreja e, de outro, na busca pela verdade, a que todo cristão deve se empenhar. Assim, segundo Santo Tomas, o “doutor da verdade católica” (“Catholicae veritatis doctor”) , isto é, aquele que é “douto” ou “instruído” nas verdade fundamentais da doutrina cristã tem por missão, além de aprofundar a pesquisa dos teólogos, ou seja, dos “adiantados”, também, a ampliação e o aprofundamento dos conhecimentos dos “iniciados” ou “incipientes” (“incipientes erudire”), isto é, àqueles que são leigos, neófitos ou principiantes, na Doutrina Cristã.

A Suma Teológica, com efeito, um dos mais majestosos empreendimentos da razão humana, não passa, enfim, de uma obra de “introdução” a Teologia. Sua finalidade é eminentemente pedagógica, de conduzir os iniciantes do estudo da Doutrina Cristã, aos seus conceitos fundamentais. São Paulo Apostolo (1 Cor 3,1-2) - tanquam parvulis in Christo, lac vobis potum dedi, non escam -, nesse sentido, citado por Santo Tomás de Aquino, ainda no Prologo, afirma que é necessário a instrução dos “meninos” na fé, que, assim como a alimentação das “crianças”, deve começa pelo “leite”, mais fácil de ser digerido, das verdades mais fundamentais da Doutrina Cristã, para que, depois, seja fornecido o “alimento sólido”, das verdades mais profundas da Fé.

Essa preocupação de Santo Tomás de Aquino foi de encontro a algumas dificuldades (“plurimum impediri”), totalmente de natureza prática, mas que totalmente repercutiam no desempenho pedagógico do ensino da Doutrina Cristã na época.

Como sabemos, o ensino medieval, se estruturava em três níveis (vide Le Goff, Gilson) a etapa inicial, era a lectio (leitura), na qual os alunos iniciantes apenas ouviam os textos que eram destinados às aulas, para estudo. Devido à carência de livros na época, por um motivo estritamente técnico, quer dizer, econômico, o ensino não era baseado na leitura direta do texto, mas na sua audição em classe (donde a expressão “textos clássicos”).

Depois dessa etapa, vem os Commentaria (comentários), caso o aluno, mediante as arguições, feitas nas sabatinas (devido a serem realizadas nos sábados), demonstre competência suficiente para ser autorizado, pelo mestre, a comentar os textos canônicos adotados pela escola.

A disputatio (disputa), finalmente, era o exercício, baseado no exame dialético do texto, que, mediante debates entre mestres e alunos, se examinava os textos canônicos com base em questionamentos e na apreciação de proposições contraditórias extraídas desses textos ou de comentários sobre esses.

Santo Tomás, no entanto, observa uma série de dificuldades nesse método pedagógico – 1) o número excessivo de questões, artigos e argumentos inúteis (“multiplicationem inutilium quaestionum, articulorum et argumentorum”); 2) a adoção, muitas vezes, de uma errônea sequencia de ensino, em que os assuntos eram expostos pelos mestres segundo a maneira como aparecia nos livros - “secundum quod requirebat librorum expositio” (já nessa época, professores excessivamente dependentes dos conteúdos dos livros) ou 3) segundo a sequência como as questões surgiam nas “quaestiones disputatae”, isso é, de maneira aleatória, sem estar de acordo com um método adequado (“secundum quod se praebebat occasio disputandi”).

Finalmente, para Santo Tomas de Aquino, o verdadeiro método de ensino e de exposição da matéria deveria ser “secundum ordinem disciplinae”, ou seja, “segunda a ordem da disciplina”.

Nesse sentido tomista, não há, necessariamente, uma divisão entre o pedagógico e o conteúdo ensinado, sendo que, se se organiza os conteúdos a serem expostos segundo a ordem do Ser; isso significa uma completa adequação entre o que vai ser assimilado pelos alunos e a própria estrutura ontológica (que inclui também a estrutura lógica) desses, partido-se dos princípios gerais para logicamente se deduzir as consequências mais longínquas dessas, formando um corpo unificado de proposições sobre um determinado objeto.

(Outro “banho” que Santo Tomás dá em alguns aspectos da Pedagogia moderna – a baboseira do “simples” para o “complexo” - é o § 2 do “Ente e a Essência”: “devemos chegar ao conhecimento das coisas simples a partir das coisas compostas e alcançar o que é anterior a partir do que é posterior, de maneira a que a exposição, ao iniciar-se pelo que é mais fácil, se torne mais adequada.”)

Trata-se do próprio método axiomático-dedutivo, estabelecido por Aristóteles, que foi posteriormente adotado, por exemplo, em Descartes, Spinoza ou Wittgenstein, mas não de maneira tão luminosa quanto pelo Aquinate, e a serviço de uma causa eminentemente pedagógica.

Vendo um mestre como Tomas se preocupar como o aborrecimento (“fastidium”) e a confusão (“confusionem”) dos jovens alunos nos cursos (“animis auditorum”) de Teologia, enfatuados com as inúteis repetições (“frequens repetitio”) dos assuntos, é uma reviravolta em algumas concepções arraigadas que pintam os mestres escolásticos como amigos de torturantes métodos pedagógicos, unicamente baseados na memorização e na repetição e no pensamento obtuso e impenetrável. David Hume (Tratado da Natureza Humana, Introdução, 3), por exemplo, para quem, o raciocínio metafísico, sinônimo de escolasticismo, não passava de uma “forma abstrusa e [que] requeira alguma atenção para ser compreendido” (“kind of argument, which is any way abstruse, and requires some attention to be comprehended”) se espantaria com esse esforço de simplificação e de luminosidade que Santo Tomás exigia não só do pensamento como dos métodos de ensiná-lo.